Eletrorretinograma — ou ERG, como costuma aparecer abreviado nos pedidos médicos — é um exame menos conhecido que o OCT ou o fundo de olho, mas com função clínica específica e importante. Especialmente em distrofias hereditárias da retina, ele costuma fazer parte da investigação em algum momento.
Vale entender o que ele mede, em que situação é indicado, e o que esperar no dia do exame.
O que o ERG mede
A retina não é só uma superfície que recebe luz. Ela é também um conjunto de células que respondem eletricamente à luz que chega. Cada estímulo luminoso que entra no olho gera uma resposta elétrica nas células da retina — e essa resposta pode ser medida.
É exatamente isso que o eletrorretinograma faz: registra a atividade elétrica da retina em resposta a estímulos luminosos controlados. Não é uma imagem (como o OCT) nem uma medida de quanto a pessoa enxerga (como a acuidade visual). É uma medida de função — quão bem as células da retina estão respondendo ao seu trabalho básico de captar luz e transformar em sinal.
Por que isso importa em distrofias hereditárias da retina
Algumas condições afetam células da retina antes de a pessoa notar mudança visual perceptível. O sistema visual tem certa margem de compensação, e alterações sutis na função celular podem existir muito antes de se traduzirem em sintomas claros.
O ERG consegue detectar essas alterações funcionais precoces, mesmo quando o exame de fundo de olho ainda parece praticamente normal e a acuidade visual está preservada.
Em termos médicos, ele ajuda a responder perguntas como:
- A função dos cones (células responsáveis pela visão de cores e de detalhes finos) está preservada?
- E a função dos bastonetes (células responsáveis pela visão em baixa luminosidade)?
- Existe alteração em apenas um tipo de célula ou nos dois?
Essas respostas refinam a hipótese diagnóstica e podem direcionar o próximo passo da investigação — incluindo qual teste genético faz mais sentido pedir em cada caso.
Como é feito o exame
O eletrorretinograma é feito com os olhos dilatados (pode exigir colírio antes do exame, como no fundo de olho ampliado). A pessoa fica sentada ou deitada, com uma pequena lente apoiada sobre o olho aberto — esse contato é desconfortável mas indolor, e o equipamento fica posicionado próximo do rosto.
Em seguida, uma sequência de flashes de luz é projetada, com diferentes intensidades. Algumas etapas são feitas com o ambiente iluminado; outras, no escuro completo (em alguns protocolos, após um período de adaptação visual de 20 a 30 minutos no escuro).
O equipamento registra as respostas elétricas da retina a cada estímulo. O exame inteiro costuma durar entre 30 e 90 minutos, dependendo do protocolo escolhido pela clínica. Não é necessário jejum, e os efeitos da dilatação pupilar duram algumas horas após o exame — visão embaçada para perto e maior sensibilidade à luz são esperadas durante esse período.
Quando o ERG aparece no caminho diagnóstico
O ERG raramente é o primeiro exame solicitado. Costuma vir depois de uma avaliação inicial (acuidade visual, fundo de olho com lente, OCT) e quando há suspeita de uma condição que afete a função retiniana de forma específica.
Em distrofias hereditárias, é especialmente útil quando:
- Há sintomas (dificuldade no escuro, sensibilidade à luz, mudança em visão de cores) sem alteração estrutural óbvia no fundo de olho
- O quadro clínico sugere um tipo específico de distrofia em que a função de cones ou bastonetes está particularmente envolvida
- O resultado vai ajudar a definir qual painel genético solicitar em seguida
O que costumo dizer no consultório
O ERG não é diagnóstico isolado — entra como uma peça do conjunto da investigação, junto com exame clínico, imagens estruturais e história familiar. Caso a caso, ele ajuda mais em algumas situações do que em outras.
E uma coisa que ajuda na consulta: se você já tem ERG feito anteriormente, traga o laudo e, se possível, os gráficos do exame. Comparação ao longo do tempo costuma dizer mais que um exame isolado.