Dra. Rebeca Souza Amaral

Doenças da retina

Retinose Pigmentar

Um grupo de distrofias hereditárias da retina que, aos poucos, afetam a visão noturna e periférica — com ritmo e intensidade que variam bastante entre pessoas.

A retinose pigmentar não é uma única doença, mas um grupo de distrofias hereditárias da retina (DHR) que afetam, aos poucos, a visão periférica e noturna. Cada forma tem uma origem genética diferente, e isso muda o prognóstico, o que se pode investigar e, às vezes, as opções de acompanhamento.

Se você chegou aqui porque ouviu o diagnóstico pela primeira vez, ou porque está tentando entender sintomas que alguém próximo está apresentando, vamos devagar. Aqui estão, de forma clara, o que a condição é, como se chega ao diagnóstico preciso e o que muda no dia a dia.

O que é

A retina é a camada fina de tecido que reveste o fundo do olho. É lá que a luz se transforma em sinal elétrico e segue para o cérebro — onde vira imagem. Essa tradução é feita por células chamadas fotorreceptores, divididas em dois tipos principais: os bastonetes, responsáveis pela visão em baixa luz e pela periferia do campo visual, e os cones, responsáveis pela visão central, pela nitidez e pelas cores.

Na retinose pigmentar, os bastonetes costumam ser afetados primeiro. Isso explica os sintomas iniciais: dificuldade para enxergar no escuro e redução do campo visual começando pelas laterais. Com o tempo, em muitos casos, os cones também começam a ser comprometidos.

Estimativas mundiais apontam prevalência em torno de 1 pessoa em cada 4.000, o que a torna a distrofia hereditária da retina mais frequente.

Sintomas

Os sintomas costumam aparecer de forma gradual e podem passar despercebidos por anos. É comum que a pessoa só perceba algo diferente quando compara sua visão com a de outras pessoas em situações específicas — dirigir à noite, atravessar um ambiente mal iluminado, se adaptar ao entrar num cinema.

Os sinais mais frequentes são:

Em algumas pessoas, a retinose pigmentar vem acompanhada de outros sintomas — mais comumente, perda auditiva. Essa combinação sugere Síndrome de Usher, uma condição genética distinta que exige investigação específica.

Diagnóstico

O diagnóstico da retinose pigmentar depende da soma de várias informações — não de um único exame. Um bom processo costuma envolver:

Histórico detalhado. Quando os sintomas começaram, como evoluíram, se há casos na família, se existem queixas associadas (auditivas, de equilíbrio, de olfato). Muitas pistas importantes vêm dessa conversa.

Exame do fundo de olho. Em casos típicos, o oftalmologista pode ver depósitos de pigmento com formato característico — descritos na literatura como "espículas ósseas" — além de estreitamento dos vasos sanguíneos da retina e palidez do disco óptico.

Exames de imagem da retina. A tomografia de coerência óptica (OCT) mostra a estrutura em camadas da retina e permite medir a preservação dos fotorreceptores. A autofluorescência de fundo pode mostrar padrões típicos da doença.

Mapa do campo visual. A campimetria mede onde você enxerga e onde já há perda. É um exame-chave para acompanhar a evolução ao longo dos anos.

Eletrorretinograma (ERG). O eletrorretinograma mede a resposta elétrica da retina à luz. Em muitas formas de retinose pigmentar, a resposta dos bastonetes já aparece muito reduzida em estágios iniciais, antes mesmo de sintomas evidentes — por isso é um dos exames mais úteis para confirmar o diagnóstico.

Teste genético. Hoje, sempre que possível, o diagnóstico deve ser complementado por um estudo do DNA, buscando a variante genética responsável. Saber o gene envolvido muda várias coisas na prática: ajuda a estimar o prognóstico, a identificar se há risco para outros familiares, a saber se existem tratamentos ou estudos clínicos específicos para aquele genótipo e a diferenciar retinose pigmentar isolada de formas sindrômicas como Usher ou Síndrome de Bardet-Biedl.

Prognóstico

Prever como a retinose pigmentar vai evoluir numa pessoa específica é uma das partes mais difíceis — e honestas — da consulta. O curso varia muito, e variáveis como o gene envolvido, o padrão de herança e a idade de início dos sintomas influenciam bastante.

Em termos gerais, a doença é de evolução lenta, costumando se desenrolar ao longo de várias décadas. Muitas pessoas com retinose pigmentar mantêm visão central útil por boa parte da vida adulta. Outras, dependendo da variante, têm evoluções mais rápidas ou mais lentas do que a média.

Em fases mais avançadas, a perda de campo visual pode configurar o que se chama de cegueira legal — uma definição técnica e legal de baixa visão, que não corresponde à ausência total de visão. Muitas pessoas nessa categoria ainda enxergam sombras, luz e, em alguns casos, imagens no centro do campo visual.

Alguns pontos que ajudam a calibrar expectativa sem alarmar:

Tratamento e acompanhamento

Hoje, não existe um tratamento único que reverta a retinose pigmentar. Mas isso está longe de significar "não há o que fazer". O acompanhamento, bem conduzido, envolve várias frentes.

Acompanhamento oftalmológico regular

Consultas periódicas com oftalmologista experiente em doenças raras da retina permitem monitorar a evolução, identificar complicações tratáveis (como edema macular, que pode responder a medicações específicas) e ajustar recursos de apoio visual.

Tratamento de complicações associadas

Catarata e edema macular cistoide são relativamente comuns em pessoas com retinose pigmentar e têm opções de tratamento estabelecidas — cirurgia para catarata e medicações específicas para edema, conforme o caso. Essas intervenções não mudam o curso da distrofia em si, mas preservam qualidade de visão no dia a dia.

Reabilitação visual

Quando a perda de campo começa a impactar atividades rotineiras, a reabilitação visual passa a ser parte central do cuidado. Inclui orientação de mobilidade, treinamento com recursos ópticos e não ópticos, adaptação de ambientes (iluminação, contraste, organização do espaço), apoio psicológico e, quando apropriado, tecnologia assistiva.

Terapia gênica

Para uma forma específica da doença — causada por mutações em ambas as cópias do gene RPE65 — existe uma terapia gênica aprovada: o voretigene neparvovec-rzyl (nome comercial Luxturna). Foi aprovada pelo FDA em 2017 e, depois, pela ANVISA no Brasil.

No Brasil, o primeiro paciente tratado com essa terapia gênica foi conduzido pela equipe da Dra. Juliana Sallum no Instituto de Genética Ocular, em São Paulo, com o caso reportado em 2022. O IGO é também o espaço onde a Dra. Rebeca atende e desenvolve sua prática em genética ocular.

É importante entender o escopo: essa terapia não trata "retinose pigmentar em geral". Ela foi desenvolvida para um subgrupo muito específico — pessoas com mutações bialélicas no RPE65, que podem se manifestar como Amaurose Congênita de Leber tipo 2 ou como formas precoces de retinose pigmentar. Confirmar a elegibilidade exige teste genético e avaliação por equipe especializada.

Para a maioria das outras variantes genéticas de retinose pigmentar, terapias específicas ainda estão em fases de pesquisa clínica.

Suplementos e o debate sobre vitamina A

Por décadas, a recomendação mais difundida para adultos com retinose pigmentar típica envolvia suplementação diária de palmitato de vitamina A, baseada num estudo clínico conduzido por Eliot Berson e publicado em 1993. Esse estudo sugeriu uma desaceleração modesta da progressão em parte dos participantes.

Em 2023, uma reanálise dos dados originais — conduzida por pesquisadores do Mass Eye and Ear com acréscimo de novos dados — não confirmou o benefício da vitamina A para a maioria das pessoas estudadas. A mesma reanálise, no entanto, reforçou que suplementação de vitamina E em altas doses deve ser evitada em quem tem retinose pigmentar, pois o estudo original e a reanálise encontraram efeito negativo associado a essa suplementação.

Para alguém com retinose pigmentar, a orientação sensata é: qualquer decisão sobre vitaminas ou suplementos precisa ser individualizada, tomada com acompanhamento médico, e considerar o genótipo, outras condições de saúde e possíveis efeitos adversos (a vitamina A em alta dose não é inócua e tem contraindicações específicas, incluindo gestação).

Estudos clínicos

Várias abordagens terapêuticas estão em investigação ativa — terapias gênicas para outros genes, retinas artificiais, terapias celulares, moléculas neuroprotetoras. Participar ou acompanhar estudos clínicos pode ser uma opção em casos selecionados. Para quem tem interesse, saber o gene envolvido é o primeiro passo: muitos estudos são específicos por genótipo.

Vivendo com a condição

Viver com retinose pigmentar é, em boa parte do tempo, viver normalmente. O que muda, com o passar do tempo, são adaptações e recursos que ajudam a manter autonomia e qualidade de vida.

Iluminação e contraste. Boa iluminação em casa e no trabalho faz uma diferença enorme. Aumentar o contraste de objetos cotidianos (marcar bordas de degraus, usar pratos de cor contrastante com a comida, etc.) reduz esforço visual e risco de acidentes.

Mobilidade. Bengalas de identificação ou de apoio, cães-guia, treinamento de orientação e mobilidade — recursos existem e são adaptáveis a diferentes fases da doença. Não é preciso "esperar ficar ruim" para começar: a introdução gradual funciona melhor.

Tecnologia assistiva. Leitores de tela, aplicativos de ampliação, reconhecimento de objetos e texto por câmera, audiolivros — o ecossistema de tecnologia acessível hoje é amplo e em evolução constante.

Suporte psicológico. Receber um diagnóstico progressivo mexe com identidade, planos, relações. Pedir apoio psicológico não é sinal de fragilidade; é parte do cuidado integral, tanto para quem tem a condição quanto para familiares.

Associações de pacientes. No Brasil e internacionalmente, associações reúnem pessoas com distrofias hereditárias da retina, famílias, pesquisadores. São espaços importantes de informação, troca e advocacy por acesso a tratamento.

Planejamento familiar e aconselhamento genético. Para quem tem a condição ou é portador de uma variante, o aconselhamento genético traz clareza sobre riscos de transmissão e opções disponíveis. É uma conversa técnica e humana ao mesmo tempo, e vale a pena ser feita com profissional especializado.

Perguntas frequentes

  • Retinose pigmentar tem cura?
    Não existe hoje uma cura única para a retinose pigmentar. Para uma forma específica — causada por mutações em ambas as cópias do gene RPE65 — há terapia gênica aprovada, que pode melhorar a função visual em pessoas selecionadas. Para as demais formas, o foco atual é o acompanhamento cuidadoso, o tratamento de complicações, a reabilitação visual e, para alguns casos, participação em estudos clínicos. Pesquisas para novas abordagens avançam em ritmo real, e o diagnóstico genético é o que permite entender quais delas se aplicam a cada pessoa.
  • Retinose pigmentar é sempre hereditária?
    Sim, no sentido de ser uma doença genética — causada por alterações no DNA. Mas isso não significa que sempre exista um caso conhecido na família. Algumas formas têm herança recessiva, em que pais portadores não manifestam a condição. Outras formas aparecem por mutações novas, sem histórico familiar. O aconselhamento genético ajuda a entender o padrão de herança e o risco para outros membros da família.
  • Meu filho tropeça no escuro. Pode ser retinose pigmentar?
    Dificuldade para enxergar no escuro em crianças tem várias causas possíveis, sendo muitas delas benignas. A retinose pigmentar é uma dessas possibilidades — não a mais comum, mas uma que não deve ser descartada quando o sintoma é persistente, quando há outros sinais (como desajeitamento em ambientes mal iluminados, histórico familiar, perda auditiva associada) ou quando a criança demonstra redução de campo visual. Uma avaliação com oftalmologista especializado em retina ou genética ocular pode esclarecer.
  • Preciso fazer teste genético se já tenho o diagnóstico clínico?
    Idealmente, sim. O teste genético não serve apenas para confirmar o diagnóstico: ele identifica o gene específico envolvido, o que muda o prognóstico estimado, define elegibilidade para tratamentos como a terapia gênica do RPE65 e para estudos clínicos em andamento, e orienta o aconselhamento para outros familiares. Também ajuda a distinguir retinose pigmentar isolada de formas sindrômicas, que podem ter repercussões em outros órgãos.
  • Posso dirigir com retinose pigmentar?
    Depende da fase e da extensão do comprometimento visual. Os critérios legais para habilitação exigem padrões mínimos de acuidade e de campo visual. Conforme a doença evolui, dirigir à noite costuma ser o primeiro limite a aparecer; depois, o campo visual se torna o fator crítico. Essa é uma conversa para ter com o oftalmologista, de preferência antes do problema aparecer em situação prática — e pode ser revisitada ao longo dos anos.
  • Vitamina A faz bem para retinose pigmentar?
    A resposta mudou ao longo do tempo. Por décadas, um estudo de 1993 sugeriu benefício modesto da suplementação com palmitato de vitamina A para adultos com formas típicas da doença. Uma reanálise publicada em 2023, com dados expandidos, não confirmou esse benefício na maioria dos casos. O que se manteve consistente é que vitamina E em altas doses deve ser evitada. Qualquer decisão sobre suplementação precisa ser individualizada com acompanhamento médico, considerando o genótipo e o contexto geral de saúde.
  • A retinose pigmentar sempre leva à cegueira total?
    Não. A evolução varia muito entre pessoas. Muitas mantêm visão central útil por grande parte da vida adulta. Em fases avançadas, pode-se chegar ao critério de cegueira legal — que é uma definição técnica, diferente de ausência total de visão. A preservação da visão central depende do gene envolvido, da idade de início, da presença de complicações associadas e do acompanhamento. Fazer estimativas individuais é trabalho do especialista, a partir de exames e do diagnóstico genético.

Referências

  1. Hamel, C.. Retinitis pigmentosa. Orphanet Journal of Rare Diseases, 2006.
  2. O'Neal, T.B.; Luther, E.E.. Retinitis Pigmentosa. StatPearls [Internet]. NCBI Bookshelf. Atualizado em 12 fev. 2024, 2024.
  3. Liu, Y.; Zong, X.; Cao, W.; et al.. Gene Therapy for Retinitis Pigmentosa: Current Challenges and New Progress. Biomolecules, 14(8):903, 2024.
  4. Comander, J.; Weigel-DiFranco, C.; Maher, M.; et al.. Natural history of retinitis pigmentosa based on genotype, vitamin A/E supplementation, and an electroretinogram biomarker. JCI Insight, 8(15):e167546, 2023.
  5. National Eye Institute (NEI). Retinitis Pigmentosa. NEI — National Institutes of Health, 2024.
  6. Sallum, J.M.F.; Kaufman, A.; Pereira, J.M.; et al.. The first gene therapy for RPE65 biallelic dystrophy with voretigene neparvovec-rzyl in Brazil. Ophthalmic Genetics, 43(4):550–554, 2022.

Revisado clinicamente por Dra. Rebeca Souza Amaral

CRM-SP 194029 · RQE 77974

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