Dra. Rebeca Souza Amaral

Doenças da retina

Doença de Stargardt

A forma mais comum de distrofia macular juvenil. Afeta a visão central, é variável entre pessoas, e a pesquisa por tratamentos está avançando.

A doença de Stargardt é a forma mais comum de distrofia macular juvenil — um grupo de doenças genéticas que afetam a mácula, a região central da retina responsável pela visão nítida e pela visão de cores. A maioria dos casos começa na infância ou adolescência, e a progressão varia bastante de pessoa para pessoa.

Se você chegou aqui porque recebeu esse diagnóstico, porque um filho começou a ter dificuldade para ler, ou porque a investigação ainda está acontecendo, vamos com calma. A Stargardt é uma condição séria no sentido clínico, mas é também uma condição com pesquisa ativa, opções de acompanhamento consistentes, e um caminho claro para viver bem com ela.

O que é

A retina é a camada no fundo do olho que transforma luz em sinal elétrico. No centro dela fica a mácula, uma região pequena mas decisiva: é ela que permite enxergar detalhes, reconhecer rostos, ler. As células responsáveis por essa tarefa são os fotorreceptores, especialmente os cones, que se concentram na mácula.

Na Stargardt, uma alteração no gene ABCA4 atrapalha o ciclo natural de reciclamento da vitamina A dentro dos fotorreceptores. Subprodutos tóxicos chamados lipofuscina acabam se acumulando no epitélio pigmentar da retina (EPR) — a camada que apoia e nutre os fotorreceptores. Com o tempo, esse acúmulo danifica as células da mácula, causando a perda gradual da visão central.

A prevalência estimada é de cerca de 1 em 8.000 a 1 em 10.000 pessoas, com variações regionais. É a distrofia macular hereditária mais frequente na infância e adolescência, mas continua sendo considerada uma doença rara.

Sintomas

Os sintomas aparecem, na maioria dos casos, entre os 6 e 20 anos de idade, com pico em torno dos 17. Em algumas pessoas, os primeiros sinais surgem mais tarde, na casa dos 30 ou 40 anos. O padrão mais comum costuma ser:

A visão periférica, diferentemente da retinose pigmentar, costuma se manter preservada ao longo da vida.

Uma particularidade da Stargardt: nos primeiros estágios, o fundo de olho pode parecer praticamente normal, mesmo quando a pessoa já sente que algo mudou. Por isso, o diagnóstico às vezes demora — e exames específicos são essenciais.

Diagnóstico

O diagnóstico da Stargardt depende da soma de vários exames. Um especialista costuma conduzir:

Histórico clínico e familiar. Quando os sintomas começaram, como mudaram, se há casos semelhantes na família. Em Stargardt, a história familiar pode ser silenciosa (porque a herança é recessiva) — então a ausência de outros casos não descarta.

Exame do fundo de olho. Em casos já estabelecidos, o oftalmologista pode observar sinais característicos: pequenas manchas amareladas com formato de "cauda de peixe" (os flecks), uma área de atrofia na mácula com aparência descrita como "bronze batido", e um sinal específico em angiografia chamado coróide escura — causado pelo acúmulo de lipofuscina que bloqueia a fluorescência natural dos vasos coroidais.

Autofluorescência de fundo (FAF). Um dos exames mais úteis para Stargardt. Mostra padrões típicos de acúmulo de lipofuscina — os flecks aparecem hiperautofluorescentes no padrão de curto comprimento de onda, e a atrofia central aparece hipoautofluorescente. Serve tanto para diagnóstico quanto para acompanhamento da progressão ao longo dos anos.

Tomografia de coerência óptica (OCT). Permite ver as camadas da retina em detalhe. Em Stargardt, revela afinamento das camadas externas da mácula e disrupção da zona dos fotorreceptores. É um exame repetido periodicamente para monitorar a evolução.

Eletrorretinograma (ERG). Mede a resposta elétrica da retina à luz. Em Stargardt, ajuda a diferenciar subtipos — alguns casos afetam apenas a mácula (ERG periférico normal), enquanto outros evoluem para comprometimento mais amplo dos fotorreceptores, aproximando-se de uma distrofia de cones-bastonetes.

Campimetria. Documenta a extensão do escotoma central e ajuda a acompanhar mudanças ao longo do tempo.

Teste genético. Hoje é parte essencial do diagnóstico. Confirma a Stargardt diferenciando-a de outras distrofias maculares de apresentação semelhante, identifica as variantes específicas no ABCA4 (ou, raramente, em genes como ELOVL4 e PROM1), permite estimar o prognóstico dentro da variabilidade conhecida e abre possibilidade de participação em estudos clínicos. Também é a base do aconselhamento genético para o resto da família.

A diferenciação de outras condições é importante: Distrofia de Cones pode ter apresentação inicial parecida, e a fase inicial de algumas formas de Amaurose Congênita de Leber pode ser confundida em crianças muito pequenas. O teste genético é o que dá clareza.

Prognóstico

A Stargardt é uma das distrofias de retina com maior variabilidade de apresentação. Dois pacientes com a mesma mutação genética podem ter quadros muito diferentes. Algumas variáveis ajudam a calibrar a expectativa:

Idade de início. Quanto mais cedo os sintomas começam, geralmente mais rápida costuma ser a progressão nos primeiros anos. Formas de início adulto tardio (após os 35–45 anos) tendem a evoluir mais devagar.

Subtipo fenotípico. A literatura descreve, de forma simplificada, três padrões principais: (1) distrofia de cones-bastonetes de início precoce, com progressão mais rápida; (2) maculopatia clássica, com acúmulo de flecks e atrofia macular ao longo de anos; (3) padrão de início tardio com poupança foveal, em que a fóvea — ponto mais central da mácula — resiste mais tempo, permitindo manter visão central útil por décadas.

Gene e tipo de variante. Variantes nulas (que abolem a função da proteína ABCA4) tendem a resultar em quadros mais precoces e de progressão mais rápida. Variantes com alguma função preservada estão associadas a formas mais leves.

Em termos funcionais, muitas pessoas com Stargardt atingem, em algum momento, o critério de cegueira legal — uma definição técnica baseada em acuidade visual ou campo visual, usada para acesso a benefícios e serviços de reabilitação. É importante entender que cegueira legal não é o mesmo que ausência total de visão: a visão periférica costuma ser preservada em Stargardt, e muitas pessoas continuam se locomovendo com autonomia.

A condição não afeta a expectativa de vida e não está associada a complicações em outros órgãos (com exceção dos casos muito raros ligados a genes diferentes do ABCA4 em síndromes específicas).

Tratamento e acompanhamento

Hoje, nenhum tratamento foi aprovado pelas agências regulatórias especificamente para reverter a Stargardt. Mas "sem tratamento aprovado" não é o mesmo que "sem nada a fazer". O acompanhamento estruturado envolve várias frentes.

Acompanhamento oftalmológico regular

Consultas periódicas com oftalmologista experiente em distrofias da retina permitem monitorar a progressão com FAF e OCT, identificar precocemente complicações tratáveis (como a rara membrana neovascular coroidal, que pode responder a injeções intravítreas de anti-VEGF), e atualizar o plano de reabilitação visual conforme a condição evolui. Em fases iniciais, o intervalo pode ser anual; em fases de mudança mais rápida, mais frequente.

Fotoproteção e cuidados com vitamina A

Duas recomendações específicas da Stargardt, que diferem de outras distrofias da retina:

Vitamina A em alta dose deve ser evitada. Diferentemente da retinose pigmentar — em que a vitamina A foi historicamente discutida como possível protetora — na Stargardt a vitamina A é parte do problema: o acúmulo de seus derivados é o que causa a lipofuscina. Não há indicação para suplementação, e altas doses (como em alguns tratamentos dermatológicos ou dietas muito ricas em fígado) devem ser conversadas com o oftalmologista. Dieta comum, com variedade de frutas e verduras, não é preocupação.

Fotoproteção ocular. A luz ultravioleta e azul, em modelos experimentais, acelera o acúmulo de lipofuscina. Na prática, isso se traduz em orientação consistente: óculos de sol com proteção UV adequada (e, preferencialmente, filtragem de luz azul) em ambientes externos, chapéus ou viseiras em dias ensolarados, e cuidado em ambientes com iluminação muito forte.

Reabilitação visual

Quando a perda de visão central começa a afetar atividades rotineiras, a reabilitação visual passa a ser central. Inclui:

Começar reabilitação cedo, antes que a visão central esteja muito comprometida, costuma funcionar melhor que esperar.

Proteção contra trauma ocular

Em Stargardt, mesmo traumas oculares leves podem causar uma complicação específica chamada fibrose sub-retiniana, com piora abrupta da visão. Por isso, a recomendação de usar proteção ocular em esportes com risco de impacto (vôlei, futebol, basquete, esportes de raquete, artes marciais) é mais forte do que em outras condições retinianas.

Terapia gênica e outras pesquisas

O cenário mudou significativamente nos últimos anos. Várias abordagens estão em ensaios clínicos:

Vivendo com a condição

A Stargardt muda algumas coisas, mas não redefine uma vida. Muitas pessoas com a condição completam a escola, a faculdade, têm carreiras em áreas que demandariam muita leitura se não houvesse tecnologia assistiva, têm filhos, mantêm rotinas ativas. O que muda, ao longo do tempo, são adaptações específicas.

Iluminação e contraste. Boa iluminação faz diferença — lâmpadas com temperatura de cor adequada, ambientes bem iluminados, contraste aumentado em objetos do cotidiano (bordas de degraus marcadas, letras pretas em fundo branco em vez de cinza). Ao mesmo tempo, fotossensibilidade pode pedir filtros e polarização específicos. Um especialista em baixa visão ajuda a calibrar.

Tecnologia assistiva. O ecossistema de tecnologia acessível hoje é vasto — leitores de tela, ampliação por câmera em smartphones, aplicativos que leem texto em voz alta, audiolivros, telefones com teclado de alto contraste. Para pessoas jovens, em idade escolar e profissional, essas ferramentas são frequentemente transformadoras.

Fixação excêntrica. Habilidade que pode ser treinada: usar uma região periférica saudável da retina para ler e reconhecer rostos, em vez de insistir no centro danificado. É contraintuitivo no começo, mas muitas pessoas ganham velocidade de leitura e conforto visual com treinamento adequado.

Suporte psicológico. Receber um diagnóstico progressivo na infância, adolescência ou início da vida adulta mexe com identidade, planos, relações familiares. Apoio psicológico é parte do cuidado, tanto para a pessoa com a condição quanto para familiares.

Associações de pacientes. Organizações nacionais e internacionais reúnem pessoas com distrofias hereditárias da retina, famílias e pesquisadores. São espaços de informação confiável, troca de experiências e advocacy por acesso a diagnóstico e tratamento.

Aconselhamento genético. Para quem tem Stargardt ou é portador de uma variante no ABCA4, o aconselhamento genético oferece clareza sobre riscos de transmissão para filhos, opções de planejamento familiar e rastreio de outros parentes. É uma conversa técnica mas profundamente humana — e vale ser feita com profissional especializado em genética ocular.

Perguntas frequentes

  • Doença de Stargardt tem cura?
    Hoje, não existe um tratamento aprovado que reverta a Stargardt. Mas o cenário de pesquisa mudou muito na última década: há vários ensaios clínicos em curso, incluindo terapias gênicas, edição de RNA, moduladores do metabolismo da vitamina A (como gildeuretinol, tinlarebant) e abordagens com células-tronco. Algumas dessas terapias já mostram sinais de desaceleração da progressão em fase avançada de estudo, mas ainda não são opções de rotina. Um diagnóstico genético preciso é o que permite entender quais linhas de pesquisa se aplicam a cada caso.
  • Stargardt é sempre hereditária?
    Sim. A Stargardt é uma doença genética, causada na grande maioria dos casos por alterações no gene ABCA4. A herança é autossômica recessiva — o que significa que a condição costuma aparecer quando a pessoa recebe duas cópias alteradas do gene, uma de cada pai. Pais portadores de apenas uma cópia geralmente não têm a doença. Isso explica por que a condição pode surgir sem histórico familiar aparente.
  • Com que idade a Stargardt costuma aparecer?
    Na maioria dos casos, os primeiros sintomas surgem entre o fim da infância e o início da vida adulta — tipicamente entre os 6 e 20 anos, com idade mediana em torno dos 17 anos. Existem formas de início mais tardio, que aparecem entre 35 e 45 anos e tendem a progredir mais devagar. O primeiro sinal costuma ser uma dificuldade nova com a visão central — letras que somem do centro ao tentar ler, dificuldade em reconhecer rostos, perda de nitidez.
  • Vitamina A ajuda quem tem Stargardt?
    Não. Essa é uma diferença importante entre a Stargardt e outras distrofias de retina. Na Stargardt, o problema está no reciclamento da vitamina A pela retina — o acúmulo de subprodutos tóxicos (lipofuscina) é parte do mecanismo da doença. Tomar vitamina A em alta dose pode, em tese, acelerar esse acúmulo. Não há suplementação recomendada, e a orientação é evitar doses elevadas sem avaliação médica. Uma dieta comum, equilibrada, não é problema.
  • Posso praticar esportes ou atividades de contato?
    Pode, com cuidados. Traumas oculares — mesmo os aparentemente leves — estão associados a uma complicação específica na Stargardt chamada fibrose sub-retiniana. Por isso é prudente usar proteção ocular em esportes com risco de impacto (vôlei, futebol, basquete, artes marciais) e evitar atividades de contato direto nos olhos. A decisão sobre quais atividades manter é individual e vale conversar com o oftalmologista.
  • Crianças podem fazer o teste genético para Stargardt?
    Sim, e em muitos casos é indicado. O teste genético confirma a Stargardt (diferenciando-a de outras distrofias maculares), identifica as variantes específicas no gene ABCA4, estima o prognóstico aproximado e abre possibilidade de participação em estudos clínicos quando apropriado. Para a família, também orienta o aconselhamento genético e o rastreio de outros filhos. A decisão de testar em idade pediátrica envolve aspectos éticos e emocionais que o aconselhamento genético ajuda a navegar.
  • A Stargardt leva à cegueira total?
    Não. A Stargardt afeta principalmente a visão central. A visão periférica costuma ser preservada ao longo da vida. Em fases avançadas, a pessoa pode atingir o critério de cegueira legal — que é uma definição técnica de baixa visão, não ausência total de visão. Muitas pessoas com Stargardt continuam se deslocando com autonomia, com auxílio de adaptações específicas para atividades que dependem da visão central, como leitura e reconhecimento de rostos.

Referências

  1. Ghenciu, L.A.; Hațegan, O.A.; Stoicescu, E.R.; et al.. Emerging Therapeutic Approaches and Genetic Insights in Stargardt Disease: A Comprehensive Review. International Journal of Molecular Sciences, 25(16):8859, 2024.
  2. Tanna, P.; Strauss, R.W.; Fujinami, K.; Michaelides, M.. Stargardt Disease. StatPearls [Internet]. NCBI Bookshelf. Atualizado em 2024, 2024.
  3. Fujinami, K.; Lois, N.; Davidson, A.E.; et al.. A longitudinal study of Stargardt disease: clinical and electrophysiologic assessment, progression, and genotype correlations. American Journal of Ophthalmology, 155(6):1075–1088, 2013.
  4. Foundation Fighting Blindness. Stargardt Disease — Overview. fightingblindness.org, 2024.
  5. Runhart, E.H.; Dhooge, P.; Meester-Smoor, M.; et al.. Stargardt disease: monitoring incidence and diagnostic trends in the Netherlands using a nationwide disease registry. Acta Ophthalmologica, 100(4):395–402, 2022.

Revisado clinicamente por Dra. Rebeca Souza Amaral

CRM-SP 194029 · RQE 77974

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