Eletrorretinograma: o exame que complementa o diagnóstico da retinose pigmentar
Quando alguém chega ao consultório com queixa de dificuldade para enxergar à noite ou sensação de que o campo visual foi ficando mais estreito, a primeira pergunta costuma ser: "mas o fundo de olho ainda não mostrou nada diferente — então pode mesmo ser retinose pigmentar?" A resposta curta é: pode. E é aí que o eletrorretinograma entra.
O que o fundo de olho vê — e o que ainda não vê
O fundo de olho (oftalmoscopia) revela a estrutura da retina: pigmentação, vasos, disco óptico. Nas fases mais iniciais da retinose pigmentar (RP) — uma doença hereditária que afeta os fotorreceptores, as células que transformam luz em sinal elétrico —, as alterações estruturais podem ser sutis ou ainda ausentes. O aspecto clássico de "espículas ósseas" (depósitos de pigmento com formato característico) nem sempre está presente quando os sintomas começam.
Isso não significa que a retina está funcionando normalmente. Significa que o exame estrutural ainda não "fechou" a imagem.
O que o ERG mede — e por que isso importa na RP
O eletrorretinograma (ERG) é um exame funcional: ele não fotografa a retina, ele a estimula com luz e registra a resposta elétrica que as células produzem — de forma parecida com o que um eletrocardiograma faz com o coração.
Na retinose pigmentar, os fotorreceptores (em especial os bastonetes, responsáveis pela visão em baixa luminosidade) começam a responder com menos intensidade do que o esperado. O ERG consegue detectar essa redução de resposta — em termos médicos, chamamos de amplitude reduzida ou resposta extinta — mesmo quando a estrutura ainda parece preservada ao fundo de olho.
É essa capacidade de acessar a função antes da forma que torna o ERG especialmente relevante no diagnóstico precoce da RP.
Vale um cuidado, porém: o ERG convencional mede a resposta global da retina. Em formas muito iniciais ou setoriais — quando só uma região está afetada —, a média geral pode ainda parecer dentro do esperado. Por isso ele costuma ser interpretado junto de técnicas mais detalhadas, como o ERG multifocal, e de exames de imagem.
OCT e autofluorescência: a imagem que complementa o ERG
Hoje, exames de imagem ajudam a ver de perto o estado dos fotorreceptores. A tomografia de coerência óptica (OCT) mostra a retina em camadas e revela a integridade da chamada zona elipsoide — a faixa ligada às células fotorreceptoras. A autofluorescência do fundo, por sua vez, pode mostrar um anel característico ao redor da mácula. Os dois são sensíveis para detectar e acompanhar a RP em fases iniciais, muitas vezes de forma complementar ao ERG.
"Qual exame detecta retinose pigmentar?" — a resposta honesta
Não existe um único exame que, sozinho, confirma ou descarta a RP. O diagnóstico é clínico e se apoia em um conjunto de informações: história familiar, sintomas, achados ao fundo de olho, campo visual, exames de imagem como a OCT e a autofluorescência, o ERG e, cada vez mais, o teste genético. Varia muito entre pessoas — tanto na apresentação quanto na velocidade com que cada exame se altera.
O teste genético, aliás, tem papel cada vez mais central nas doenças hereditárias da retina: ajuda a confirmar o diagnóstico, identificar o gene envolvido, orientar a família sobre os padrões de herança e, em casos específicos, saber se existe um tratamento dirigido àquele gene.
O que costumo dizer para os pacientes: o ERG não é o exame que "dá o veredicto", mas é muitas vezes o que nos permite ter uma conversa mais fundamentada sobre o que está acontecendo com a retina, antes que outros sinais apareçam.
Qual combinação de exames faz sentido para cada caso — incluindo se e quando indicar o ERG — é uma das conversas que cabem na consulta especializada, caso a caso.
Se você tem histórico familiar de retinose pigmentar ou está com dúvidas sobre sintomas visuais, considere marcar uma avaliação com um especialista em retina. Começar essa conversa cedo faz diferença.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica individualizada.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso varia conforme o contexto individual.
Dra. Rebeca Souza Amaral
Oftalmologia, com foco em Genética Ocular e doenças raras da retina
CRM-SP 194029 · RQE 77974
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