Eletrorretinograma (ERG): como é feito o exame e o que ele mede
Quando alguém ouve pela primeira vez que vai fazer um "eletrorretinograma" — ou ERG —, muitas vezes vem um misto de curiosidade e receio. A palavra soa técnica, e a ideia de um exame com eletrodos no olho pode gerar ansiedade. Mas a experiência, em termos médicos, costuma ser bem mais tranquila do que parece.
O que o ERG registra
O eletrorretinograma mede a atividade elétrica das células da retina — em especial os fotorreceptores (cones e bastonetes) e as células bipolares e de Müller que processam esses sinais. Quando um estímulo luminoso atinge a retina, ela gera pequenos sinais elétricos; o ERG capta e registra essas respostas.
Não é um exame que "vê" estruturas (como uma tomografia faria), mas sim avalia função: como a retina está trabalhando. Por isso ele é especialmente útil em condições que afetam fotorreceptores — casos de retinose pigmentar, distrofias de cones, toxicidade retiniana por medicamentos, entre outras situações que variam muito entre pessoas. A avaliação da função das células ganglionares, quando necessária, costuma exigir variantes específicas do exame, como o ERG por padrão (PERG).
Como é feito o exame
O paciente fica sentado ou deitado em uma sala preparada. Em geral, aplica-se um colírio para dilatar a pupila antes do início — e há um período de adaptação ao escuro de cerca de 20 minutos, necessário para avaliar a função dos bastonetes. Esse tempo de espera faz parte do protocolo, não é intercorrência.
Para captar os sinais elétricos da retina, usam-se eletrodos. O tipo mais comum é o de contato corneano — uma espécie de lente fina colocada suavemente sobre a superfície do olho, após colírio anestésico. O colírio reduz bastante o incômodo; a maioria das pessoas sente apenas a presença do eletrodo, não dor. Em muitos serviços, especialmente para crianças ou pacientes que não toleram lente, usam-se eletrodos mais delicados — como o fio DTL, que fica junto à margem da pálpebra, ou eletrodos de pele. Outros eletrodos de referência ficam na testa ou perto da orelha.
Durante o teste, flashes de luz de intensidades e cores variadas são emitidos. A retina responde, os eletrodos captam os sinais, e um computador transforma isso em gráficos (ondas). Dependendo do protocolo, parte do exame acontece no escuro (ERG escotópico, que avalia bastonetes) e parte com adaptação à luz (fotópico, para cones). O tempo total varia — geralmente entre 30 e 60 minutos, dependendo do contexto individual.
Quando o ERG é pedido
Ele entra na investigação quando há suspeita de disfunção difusa da retina — ou seja, quando o problema parece afetar a retina como um todo, não apenas uma região pequena. Exemplos:
- Distrofias hereditárias (retinose pigmentar, distrofia de cones e bastonetes)
- Investigação de cegueira noturna ou perda de visão de campo periférico
- Avaliação de toxicidade retiniana (alguns remédios, em uso prolongado, pedem monitoramento)
- Casos onde o fundo de olho parece normal mas a função visual está comprometida
Cada indicação depende de sinais clínicos, história familiar, exame de fundo de olho e outros testes — é uma das conversas que cabe na consulta especializada, caso a caso.
O que costumo dizer para o paciente
"Vamos devagar: o eletrodo parece estranho, mas não machuca. A sala escura pode incomodar um pouco quem tem claustrofobia leve, mas você estará acompanhado o tempo todo. Se sentir desconforto, é só avisar."
O ERG não substitui outros exames — ele complementa a visão geral. E os resultados são sempre interpretados junto com o quadro clínico: não existe um número isolado que "fecha diagnóstico" sozinho. Duas pessoas com a mesma doença podem ter ERGs diferentes, porque o estágio da doença, o genótipo e o fenótipo individual influenciam a resposta da retina — e é justamente essa variabilidade que o acompanhamento especializado ajuda a interpretar, caso a caso.
Se o ERG foi pedido para você, leve as dúvidas para a consulta: entender o porquê do exame já diminui metade da ansiedade.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica individualizada.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica individualizada. Cada caso varia conforme o contexto individual.
Dra. Rebeca Souza Amaral
Oftalmologia, com foco em Genética Ocular e doenças raras da retina
CRM-SP 194029 · RQE 77974
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